POR QUÊ ?

 Por que algumas pessoas deixam marcas tão profundas por onde passam e outras evaporam-se no ar, tao logo dobram a esquina? Pessoas retas, exigentes, sérias como meu pai são muito mais lembradas que outras "tão boazinhas".

Afinal o que é ser bonzinho? Ser permissivo, tolerante, desligado? Ou fazer o bem? Parece que as pessoas a quem mais se referem como "boazinhas" são exatamente aquelas que não ousam manifestar sua opinião e concordam com tudo e com todos para não se indispor com ninguém. Mas isso é bondade?

Por que o Brasil importa lixo quando não dá conta de reciclar nem seu lixo doméstico? Importar fraldas usadas me parece o fundo do poço e do menosprezo para com a fiscalização portuária. Soa como deboche até.

Por que tudo é tão nebuloso em se tratando desta nova gripe? Será que diminuir sua importância e riscos fará com que ela passe sem que os brasileiros mal a percebam?

Por que um homem como José de Alencar sofre tanto enquanto outros crápulas não sentem nem dor de dente?

Por que às vezes a gente fica melancólica, sem um motivo especial?

Por que os sentimentos ficam tão suavizados depois de certa idade?

Você já imaginou um sábado ensolarado, com uma turma de amigos verdadeiros, ao ar livre, andando a cavalo, comendo churrasco, tomando um bom vinho, relembrando coisas e causos, achando graça de tudo, comendo fruta do pé, caminhando pelo campo em papos interminávies, confidências, inconfidências, reminiscências? Para mim, seria um sábado perfeito!

Por que estou dizendo tudo isso com a exata impressão de que não disse nada?

Por que não vou ler mais um pouco do meu livro?

Por que minha cabeça não pára?

Por quê?



Escrito por Maria Luiza às 15h33
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MENÇÃO HONROSA

Hoje estou muito contente!

Participei de um concurso de crônicas de uma editora carioca , pré-classificando as três crônicas que enviei (de 1200 concorrentes ficaram 300) e agora leio que uma delas - "Adoráveis Cinquentinhas" recebeu menção honrosa, ficando entre as 10 melhores. Podem conferir no site  http://www.guemanisse.com.br/

Para quem adora escrever como eu, prêmios literários têm um valor inestimável!

Esta crônica faz parte do meu livro de crônicas - GAZETEANDO , para quem não tem o livro, vou reproduzi-la aqui.

ADORÁVEIS “CINQUENTINHAS” 

Toda menina sonha em se tornar moça, mas nenhuma delas tem pressa de envelhecer. Demora tanto para se chegar aos vinte anos que fica difícil acreditar que o tempo passará mais depressa depois, ou que assim possa parecer. Para as meninas da minha época, então, chegar aos quinze anos tinha uma urgência especial, pois só assim poderíamos usar sapatos de salto, passar batom, namorar, dançar. Hoje mudou bastante, parece que, de tardia, a adolescência se tornou precoce.  Depois dos vinte, éramos alertadas de que levaríamos um choque quase fatal ao apagar as trinta velinhas do bolo. Se sobrevivêssemos, aos quarenta entraríamos numa fase interminável dos “enta” que só terminaria na morte, ou num hipotético aniversário de cem anos. Como se pode ver, as faixas etárias foram sempre bem marcadas e nem sempre com as benesses dos quinze anos. Os cinqüenta, então, nem eram muito comentados, talvez para não assustar demais.

Para homens e mulheres, completar 50 anos deve ser diferente, como, de resto, quase tudo o é, malgrado a opinião das feministas. Para as mulheres, funciona mais ou menos assim.

No dia do meu aniversário, quando, no dizer da minha bondosa mãe, estou completando “meio século” de vida, convido-os a fazer um passeio comigo pela minha geração.

 Quem já passou dessa idade deve lembrar-se de muitas coisas, já que as mudanças, naquele tempo, não eram assim tão avassaladoras. Os que pertencem à minha geração certamente irão se encontrar muito no texto e os mais jovens poderão lê-lo como historiografia ou curiosidade, o importante é que leiam.

Com cinqüenta anos a gente tem menos pressa, mais paciência, explode menos, chora menos de raiva e mais de saudade. O espelho passa de amigo a delator, apontando defeitinhos novos a cada dia, debochando do nosso arsenal de cremes e opinando sobre a conveniência dos nossos adereços, roupas e penteados.

É hora de reler os livros e rever os filmes assistidos numa época de maior turbulência emocional e menos tempo. Com essa idade já nos ajustamos ao salário, ou nos resignamos a ele, o que evita maiores frustrações. Os sonhos são menores, mais facilmente exeqüíveis e a saúde assume a forma do bem maior, desejado antes de qualquer outro. Aproximamo-nos mais da família de origem, buscando as raízes, tentando voltar ao ninho de nascimento, até como uma forma de proteção contra o receio da morte.

Fazer cinqüenta anos é ter acompanhado a evolução do fogão a lenha ao forno de microondas, habituando-se a eles; da caneta-tinteiro ao teclado do computador; do cinema mudo aos filmes com efeitos especiais; dos bebês deixados em cestinhas à porta das casas ricas aos clones; do beijo técnico em Casablanca aos edredons do Big Brother Brasil; do telefone de manivela, via telefonista, à invasão dos celulares cada vez mais avançados e muitas outras mudanças que nós realmente vivenciamos e às quais tivemos que, em tempo recorde, nos adaptar para não perdermos o bonde da história.

Quem de nós não brincou de bonecas de papel, com as roupinhas cuidadosamente recortadas? Quem não teve botões de casacos arrancados pelo irmão para ser transformado em um artilheiro de seu time de futebol de botão? Quem não pediu mármores (até do cemitério) para fazer pedrinhas de Cinco Marias? E pulou amarelinha, brincou de baleia, de rei-rainha, de bandido e mocinho, de esconde-esconde? Ouvindo novelas de rádio, sem TV e muito menos os questionáveis videogames.

Ser “cinqüentinha” é também ser “envelhescente”, com altos e baixos típicos da transição de idade, sentindo-se às vezes com vinte e em outras com setenta anos, achando seus contemporâneos envelhecidos, embora seu bom senso permita que eles pensem o mesmo de si. É chorar e gargalhar menos, mas sorrir mais. É ter seu termostato enlouquecido, com ondas de frio e calor diferente das outras pessoas, causando estranheza e muitas vezes embaraços. Isso ou optar pela reposição hormonal, inchar como um balão e aproveitar a desculpa para saborear todos os doces proibidos, concluindo que maiô é muito mais elegante que biquíni e que o sol da praia é um perigo para a pele. É, de repente, ser chamada de “senhora” por todos os jovens bem educados e de “tia” pelos nem tanto. É valorizar mais o amor-calmaria, o amor-companheirismo, o amor-sintonia. É ter a casa cada vez mais cheia de porta-retratos, mesmo apreciando menos as fotos “ao natural”.

Chegamos a essa etapa da vida com “o pacote completo”: rugas, varizes, flacidez, cabelos brancos, filhos criados, trabalhos dobrados e ainda a desejada e assustadora aposentadoria. Não podemos mais gerar filhos, tampouco trabalhar, precisamos esvaziar nosso armário e cedê-lo a alguém mais jovem, com mais energia. Isso não significa, todavia, que somos descartáveis, apenas que é hora da colheita e não mais da plantação. Quem teve a sorte de chegar até aqui com um companheiro fiel e carinhoso, leva vantagem. Caso contrário, vale a pena correr atrás e encontrar seu par para a próxima etapa da vida. Afinal, podemos caminhar de mãos dadas, dançar, ir ao cinema, viajar, ser feliz. Até porque, com a indústria da beleza a nosso favor, tem muita mulher de cinqüenta arrasando nas passarelas da vida. Além do que a beleza da alma não é apenas um eufemismo, ela existe e se manifesta de forma vigorosa na maturidade.

Completar 50 anos, por fim, é agradecer a Deus por ter chegado com saúde ao topo da colina e, uma vez lá, aproveitar bem a paisagem antes de começar a descida.

Afinal, meninas, somos cinqüentinhas, mas continuamos adoráveis!  

 



Escrito por Maria Luiza às 19h26
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CABEÇA FEITA

Hoje eu reconheço o valor das escolas que se propõem a criar cidadãos críticos.

Muitas gerações só aprenderam nos bancos escolares a papagaiar nomes e datas, assim como os cursinhos pré-vestibulares fazem até hoje. No máximo, aprendia-se a criticar exatamente como o historiador propunha, respondendo a questões formuladas pelo próprio. E não se deve esquecer que a História anda de braços dados com a Literatura, a ficção e que os "fatos" dependem muito da visão do historiador que os relata.

Em síntese, o que se fazia era pensar com a cabeça dos outros.

Foi assim em relação à Ditadura Militar. Os professores muito contrários a ela foram cassados e os que ficaram nos fizeram mastigar um discurso falso, superficial, cheio de inverdades (dos dois lados).

Eu, na época, era casada com um militar e sofri bastante discriminação na Universidade, hostilidades gratuitas, como se meu marido (que nunca nem tinha ido a Brasília) tivesse deposto João Goulart e Brizola. Passei anos ouvindo piadinhas de gosto duvidoso, atribuindo aos militares o "emburrecimento" do povo brasileiro.

Não tenho autorização e muito menos preparo para defender os militares aqui ou em qualquer lugar. Só sei o que uma esposa de oficial podia saber - que os militares nunca foram preparados para almejar o poder. No meu modesto (de verdade!) entender, a ditadura foi assim como um remédio amargo para curar uma doença, com data para deixar de tomar.

Claro que as torturas e censuras foram execráveis e sem justificação possível!

Sempre digo que tudo tem, no mínimo, dois lados. E o lado bom da ditadura militar foi a moralização dos poderes públicos, sem roubalheira, sem corrupção, sem desvio de verbas.  Se estivessem no poder hoje em dia, certamente os militares voltariam a fechar o Congresso Nacional, entre outras medidas.

Escrevi, inclusive em trabalhos acadêmicos, que , por causa da ditadura militar, muitos "gênios" tiveram que se calar, por conta da censura. O curioso é que, depois da ditadura, os tais gênios pelo visto continuaram calados...

 Os alunos dos Colégios Militares saem muito bem preparados, porque têm disciplina nas aulas e nos estudos. Que eu saiba, nenhum professor destas escolas foi ofendido ou agredido.

Leio hoje num jornal local o protesto de um homem, cuja esposa de apenas 37 anos está hospitalizada, com câncer, e sofrendo pela falta de um remédio que poderia aliviar suas dores. O SUS alega que não tem recursos para fornecer o tal remédio. Pois é, parece que no Brasil só faltam recursos para remédios, material escolar e outras necessidades básicas. Já para os apartamentos funcionais, para os cabides de emprego, para as verbas de representação, para as viagens semanais dos políticos, para as propinas, para os mensalões, para a gastança oficial (e oficiosa), para tudo isso nunca faltam recursos. Curioso.

Penso no quê os livros de história deste tempo irão registrar, sob que ótica. Dos políticos? Do povo? Dos ricos? Dos miseráveis? Dos bandidos ricos? Dos bandidos pobres? De quem?

É, fazer a cabeça de alguém é um compromisso muito sério. Melhor educar para que cada um seja capaz de tirar suas próprias conclusões.

 



Escrito por Maria Luiza às 19h35
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