O POÇO

                   Dona Dosolina era muito conhecida nesta rua, afinal vivera noventa anos por aqui, criando uma penca de filhos e depois netos. Sua casa ficava ao lado do prédio onde moro e ela deve ter sofrido um bocado durante a construção do “Recanto das Pedras”. Fui das primeiras moradoras e meu apartamento ficava exatamente ao lado do quarto dela (ouvia até seus roncos). Presa a costumes antigos, de quando Floripa ainda era uma ilhazinha e o Estreito um bairro com ares de cidade do interior, dona Dosolina criava galinhas (muitas!), tinha fogão e forno a lenha (oh fumacê!) e de madrugada já andava na horta, apanhando verduras antes do sol, cuidando das roseiras, alimentando a criação. Perdi a conta das vezes em que tivemos que ficar encerrados, com as janelas trancadas por causa do cheiro do galinheiro, dependendo da direção do vento. Quando fazia pão então era um Deus nos acuda! A casa se inundava de fumaça, fuligem e um pouquinho do cheiro do pão. Não era fácil! Mesmo assim eu gostava muito dela.

Italiana alta, forte, sempre mastigando alho para não pegar gripe, usando “chinelas” de couro largas, saias compridas, cabelo preso num coque, caminhando rápido, ia à missa todos os dias de manhã cedinho, fazia hidroginástica e ainda suas próprias compras, sempre sozinha na rua. E me fazia pensar que valeria a pena ficar velha como ela, se bastando e ainda recebendo a família com seus pães e suas galinhas.

Um dia, a ganância dos filhos fez com que ela vendesse a casa e fosse morar com um deles para repartirem o dinheiro. Dona Dosolina murchou... até gripada andava e sacudia a cabeça pensando nas roseiras que deixaria para trás.

Não sei como ela anda, nunca mais a vi.

O que tenho acompanhado é a demolição de sua casinha, a destruição de sua horta bem cuidada, conformando-me com o fato de que os passarinhos fizeram de sua casa seu parque de diversões e nos brindavam com serenatas maviosas diariamente.

Agora “eles” chegaram. Com suas máquinas assustadoras, seus homens gritões, seu materialismo irrefreável, indiferentes a tudo que não represente lucro ou dinheiro. Há dias promovem uma verdadeira devastação no que restara do solar da dona Dosolina, espantando pássaros e gentes, com um barulho ensurdecedor.

Hoje, feriado do Dia do Trabalho, antes das 7h a retro escavadeira já estava esburacando mais e mais. E o sono de quem pensava em poder dormir mais um pouco se evaporou junto com a paciência e qualquer resquício de civilidade.

No meio da função, descobriram um poço. Fundo e bem feito, no qual foi preciso colocar muitos metros cúbicos de terra para tentar nivelá-lo. Não pude deixar de pensar em como seria bom se o poço os engolisse todos, com suas máquinas barulhentas. É, estou com raiva mesmo.

Agora entendi porque, naqueles verões de falta d’água, dona Dosolina nunca se queixou e até, generosamente, nos cedia um baldinho para o banho das crianças. Ela tinha um poço! Foi o último a ser destruído, agora sim a casa da vizinha só resta mesmo nas nossas lembranças.

 



Escrito por Maria Luiza às 10h45
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DE MAU GOSTO...

Nelson Rodrigues, quando queria esculachar com um personagem dizia que o tal havia morrido "atropelado por uma carrocinha de Chicabon"; para ele, a degradação máxima.

Nos idos da gripe do frango, que nem são tão idos assim, eu mesma escrevi pedindo que, caso me tornasse uma vítima dela, colocassem no meu atestado de óbito alguma doença mais séria, que não sugerisse piadas ou risadinhas de mofa. Achava deplorável ter feito tanta coisa interessante na vida e morrer de uma doença das galinhas.

Agora, tão logo surgiram as primeiras notícias da gripe suína, caso ainda dispusesse do meu tempo como antes, já teria criado uma crônica instantânea, certamente provocando risos em alguns de vocês.

Imaginem que tenho fama de exagerar nos banhos, como antes da praia ou da ginástica (pra suar perfumada), e acabar morrendo de uma doença de porcos! Suprema ironia...

E a deliciosa e inigualável linguiça (sem trema) do Alegrete, ficará proibida?

Brasileiro tem o costume de rir de seus próprios defeitos e desgraças. Até que a doença vitime algum conhecido ou parente (Deus nos livre!). Nesse caso, de gozador mostra sua outra face, tão característica quanto - a de passional. E se desespera, morre junto, desequilibra totalmente.

Então, ainda não é o momento de brincar com uma coisa que não sabemos exatamente a que nível de seriedade pertence. Mas já desconfiamos que é bem mais séria do que a mídia se permite anunciar.

Acho não vou fazer regime agora. Deixar de comer o que gosto, de saborear um bom vinho, aquelas trufas maravilhosas que ganhei na páscoa só pra enxugar um pouco esta silhueta hipertrofiada... mas, e se a tal gripe dizimar todo mundo? O sacrifício teria sido em vão.

Parece que estas catástrofes pandêmicas gostam mesmo é de "hablar" não? Primeiro a gripe espanhola e agora esta mexicana...

 Por isso é que eu gosto do verão!

 Pior é que, mais uma vez, não quiseram me dar a vacina dos idosos (pra isso sou novinha em folha).

Vocês estão com medo? Ou não estão nem aí?

Sei não...



Escrito por Maria Luiza às 20h46
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O MONSTRO

Meu dia estava tranquilo (sem trema), à tarde recebi uma ótima notícia de um Concurso de Contos, avisando que fui pré-classificada com meu primeiro conto mais longo.

No finalzinho da tarde, quando me preparo para "devolver" a netinha aos pais, vejo um circo de horrores pela sacada. Uma máquina E-NOR-ME tentava invadir o terreno ao lado, aquele onde os passarinhos vêm cantar. Trancou o trânsito (bem na hora do pico), rebentou uma enormidade de fios, enlameou toda a rua, arrancou pedaços do portão do terreno. E isso é só o começo.

Até hoje nunca convivi com obras assim tão perto. Uma simples reforma na casa, uma troca de piso já me deixam completamente estressada. Como vai ser???

Daqui desta peça onde escrevo, costumo deixar a janela aberta e espio os passarinhos, as flores, o verde. Bruna dorme como um anjinho no sossego de se ter um terrreno vazio ao lado. E agora???

Assim, na penumbra, é realmente um monstro de ferro espiando a gente. Isso que está calado. Imaginem quando começar a cavar...

Sete horas da manhã já teremos os peões chegando, com seus indefectíveis radinhos ligados, sem falar nas cantorias, conversas, batidas, barulheira, tudo de ruim.

Levantar de camisola e abrir as janelas nunca mais.

Gente, acho que não vou resistir! E são nove andares! Pior, empresa pobre, trabalhando sujo e não se responsabilizando por nada. Se não fosse assim, não colocaria uma corretora numa mesinha de plástico na calçada, com um guarda-sol para tentar se proteger do sol de cinquenta graus, com uma placa de "Plantão de vendas".

Não tivesse eu a responsabilidade de cuidar da minha mãe e da minha netinha, iria amanhã para Curitiba e só voltaria para a inauguração do edifício (se voltasse).

Se não tivesse um marido ainda trabalhando em Curitiba, iria para Alegrete, cuidar um pouco da minha casa silenciosa de lá, também sem prazo para retornar.

Acho que vou surtar.

Socorro!



Escrito por Maria Luiza às 18h58
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