80 ANOS DO IEOA

Este texto deve estar saindo amanhã na Gazeta de Alegrete. Foi para ela que escrevi, como tenho feito há quase quarenta anos.

Sei que alguns alegretenses, para minha alegria, têm encontrado meu blog. Então, resolvi partilhar com todos a homenagem que prestei à minha (nossa) escola.

IEOA

 

Sei que hoje novas letras foram incorporadas a esta sigla, mas foi assim que ficou tatuado na minha memória, nos distintivos da gravata, nos tambores da Banda Marcial, nos gritos da torcida nos Jogos da Primavera e nos nossos livros e cadernos.

Tínhamos o maior orgulho de estudar no Instituto de Educação Oswaldo Aranha! Precisávamos, inclusive, prestar exames de um grau para o outro a fim de conquistarmos o direito de estudar na melhor escola pública da cidade, quiçá da região. E não eram nada fáceis aqueles exames de admissão!

O colégio era, sem sombra de dúvida, um prolongamento da nossa casa. Era lá, entre aqueles muros baixos, que tudo acontecia, onde virávamos cidadãos, onde desabrochávamos para a vida, onde estavam todos os nossos amigos, flertes e namorados.

Comecei a freqüentar o IEOA antes do tempo, pois minha mãe trabalhava lá e eu fui para o Jardim de Infância com quatro anos, na época em que só se ia aos cinco.

Independente, preferia ir para a escola com o Seu Macário, nosso transporte escolar a pé. Era um negro velho, bonachão, que recolhia as crianças em casa, levava e trazia da escola, às vezes até no colo, quando nos queixávamos de cansaço.

O IEOA era assim como um útero fértil, abrigando gerações inteiras, protegendo-as, preparando-as, habilitando verdadeiramente.

No início de cada turno recebia uma enormidade de azul-marinho e branco e se fechava com eles até o término do período, quando aquelas andorinhas debandavam superpovoando a avenida e cedendo espaço a outro grande bando que logo chegaria e adentraria a grande barriga, para germinar seu futuro e se desenvolver em sentido amplo.

Entrei no IEOA menininha, saudando o Secretário de Educação em nome do Jardim de Infância, declamei muito, cantei oito anos no Orfeão Carlos Barone, dancei, fiz ginástica rítmica, joguei vôlei, representei, fiz política estudantil, fui líder, rainha de turma, venci alguns concursos de redação, tirei muita nota dez e algumas das quais não me orgulho, fiz amizades para toda a vida, admirei todos os professores, com destaque para a direção do professor Carlos Romeu Grande e suas exigências de uniforme. Sou, enfim, um produto do Oswaldo Aranha, pois foi lá que construí os alicerces do que sou até hoje.

Saí de lá, chorando, formada professora e voltei no ano seguinte já para trabalhar. Só deixei minha escola porque fomos transferidos para Santa Catarina e até hoje poucos símbolos mexem tanto comigo como a escada de mármore e o salão nobre do Oswaldo Aranha.

Parabéns IEOA!

Assim, deixando marcas tão profundas e generosas em tanta gente, vale a pena fazer oitenta anos!

 

 

 



Escrito por Maria Luiza às 08h03
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A PEDIDO

Sei o quanto é difícil e sofrido parar de fumar.

Por isso, vou postar novamente um texto que já andou por aqui, com o intuito de dar uma força para os que estão frequentando o limbo dos primeiros tempos sem nicotina.

A VIDA SEM FUMAÇA

 

Na década de setenta, final dos anos sessenta, o liberalismo feminino estava de bandeiras desfraldadas e as mulheres clamando por direitos e liberdade. É claro que essas revoluções demoravam um pouco para chegar a Alegrete (onde ainda nem tínhamos televisão) e mais ainda à casa do seu Ramos. Entretanto, aquele protesto feminista era travado em surdina, nos quartos das meninas com portas trancadas, no pátio das escolas e nos bancos das praças, em conversas intermináveis.

Queríamos o direito de usar calças compridas como os rapazes, ao invés de congelarmos as pernas com aquelas meias finas sob as saias curtas, com aquela costura que teimava em entortar.

Clamávamos pelo direito de ficar de mãos dadas no cinema e até dar uns beijinhos quando apagava a luz; queríamos dançar músicas lentas de rosto colado sem ficarmos “faladas” e também... fumar! Sim, como aquelas belas mulheres de longas unhas vermelhas, olhos semicerrados, boca carnuda pintada, sugando a comprida piteira que fazia espirais de fumaça no ar. Que coisa mais chique! Como nos sentíamos poderosas imitando aquele gesto, mesmo com os cigarros baratos, sem filtro, que furtávamos da mãe de uma amiga (a única que fumava), que nos fazia chorar, engasgadas com a fumaça e, depois, até bochechar perfume para nos livrar do cheiro. Quem não sabia tragar era “muito criança”, não podia se misturar com “as moças”. E lá íamos nós, naquele duro aprendizado, achando tudo horrível, cuspindo, mas insistindo para sermos aceitas no grupo das mais velhas, que sabiam das coisas e por   quem os rapazes mais cobiçados “babavam”. Aliás, eles também queriam ser galãs de cinema, machões das terras de Malboro e Hollywood, portanto, ostentavam orgulhosos seus maços de cigarro no bolso da camisa e até nos ofertavam alguns, num ritual de iniciação onde JAMAIS se falou em doenças ou problemas advindo do tabagismo. O máximo que nós, meninas, ouvíamos era que “é feio mulher fumar”. Em tempos de feminismo, essa era uma razão a mais para insistirmos nas tragadas, até acostumarmos com o gosto, o cheiro e... ficarmos viciadas.

Já era adulta quando parei de fumar, na gravidez e amamentação do meu primeiro filho. As colegas da faculdade encarregaram-se de me reconduzir ao Minister. Parei de novo na gravidez do segundo e a mesma turma apoiou meu reingresso. Na do terceiro voltei sozinha, porque já não conseguia me imaginar com a cuia de mate sem o cigarro entre os dedos.

E assim foi por longos trinta e oito anos, agora consciente de todos os malefícios advindos do cigarro e seus estranhíssimos componentes, capazes de matar até ratos e baratas. Essa consciência, se não me salvou de imediato, pelo menos fez com que eu educasse meus filhos para detestarem tudo que se refere ao tabagismo. Sempre querendo parar, diminuindo, trocando para marcas mais fracas, prometendo a todos e a mim mesma que pararia, marcando datas, deixando de carregar na bolsa, evitando os fumódromos, enfim, numa luta insana para me livrar de um vício que me obrigara a adquirir na adolescência.

Bem, ano passado decidi que achava horrível gente velha fumando e que ia parar. Consegui. Há trinta meses não chego perto de um cigarro. Ou serão trinta anos? Trinta séculos? Só quem já fumou sabe o que isso representa, uma vez que a nicotina é a droga mais viciante de todas as que existem, segundo os médicos. Isso porque, além da dependência física, existe uma pior, que é a psicológica, aquela que nos faz usar o cigarro como muleta, como calmante, como estimulante, como símbolo disso ou daquilo. A cuia do chimarrão fica perdida nas mãos, o cafezinho, o vinho, parece que tudo fica incompleto para quem os atrelou durante grande parte da sua vida.

Escrever então... durante os primeiros meses parecia que minha veia literária praticamente “secara”. O que sempre fora fácil para mim, que escrevia uma crônica em aproximadamente vinte minutos, tornou-se árido, insípido, muito difícil mesmo. As palavras custavam a sair e , quando saíam, não me agradavam.

Hoje, trinta meses depois da última tragada, ainda sinto falta nos momentos de ansiedade ou de euforia, mas detesto o cheiro e retomo, aos poucos, o gosto pelas outras coisas que consegui desatrelar do cigarro.

Este depoimento tem o objetivo maior de dizer a quem está começando a fumar, ou tentando parar, principalmente às mulheres, que “fiquem fora dessa! O cigarro faz um mal danado à saúde; deixa a pele envelhecida, sem brilho; faz com que estejamos sempre dependentes de lugar para comprar, lugar onde é permitido fumar, sempre se isolando dos outros, causando mal estar nas pessoas, incomodando com aquela fumaça mal cheirosa e, sobretudo, sem resolver NADA. Você fica fedendo, com os dedos e os dentes manchados, a voz rouca, com pigarro e coriza constantes, a boca amarga e os problemas continuam lá, do mesmo jeito, aguardando uma solução que independe do cigarro”.

Não é fácil, mas vale a pena! A sensação de liberdade é muito boa e combina mais com a mulher de hoje! Coragem!

 



Escrito por Maria Luiza às 09h40
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POBRE TIRADENTES

Diante da acentuada crise de valores, da falta total de ideologia, do descrédito nas instituições e nos homens públicos, considero um desperdício a morte de Tiradentes, ainda de forma tão cruel!

Já pararam para pensar em quantas pessoas foram sacrificadas em nome dos ideais(ou da loucura) de um ditador? Geralmente inteligentes, caso contrário não conseguiriam manipular tanta gente, eles tiranizam nações inteiras, sacrificam vidas,excluem gerações e depois o tempo e a história comprovam o quanto eles estavam errados e foram cruéis. Hitler, Mao e tantos outros deixaram sua triste contribuição em seus países, o mesmo acontecendo com tantos outros.

Certamente vocês sabem que ainda existem muitos povos oprimidos, muita gente perseguida e ameaçada por fanatismos religiosos e políticos, Tiradentes da modernidade!

É muito mais fácil calar, olhar para o outro lado, fingir que não ouve, não vê, não sabe. O famoso gesto do avestruz ainda é largamente usado por muita gente.

Tiradentes foi enforcado e esquartejado. Hoje, sua maior contribuição talvez seja a de propiciar mais um feriadão. Muitos alunos, sabendo de seus ideais e de sua história, devem considerá-lo "um otário".

Como o mundo mudou desde então! Como o Brasil mudou! Creio que nem Tiradentes faria o que fez se vivesse em nossos dias.

Será melhor ou pior essa falta de ideais?

Daqui a pouco tem eleições novamente... e nós, continuaremos sem lembrar em quem votamos?

Pobre Tiradentes...



Escrito por Maria Luiza às 11h19
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DESÍGNIOS DE QUEM?

Hoje soube que o filho de uma amiga querida da adolescência e juventude, rapaz bonito, de apenas vinte e oito anos, com namorada, educado, gente boa enfim, morreu num desastre de avião ainda não bem esclarecido.

Foi um acidente. Uma fatalidade. O que não diminui a tristeza de quem o conheceu ou conheceu a sua família.

No mesmo dia, leio no jornal que um carcereiro de quarenta e poucos anos e duas filhas adolescentes foi enforcado por um “menor” de dezessete anos, acusado de múltiplos crimes, foragido diversas vezes do tal “abrigo de menores”, unicamente porque o dito “menor” não ia com a cara dele.

Desculpem-me, mas não consigo entender isso como “desígnios divinos”. Deus não pode querer estas barbaridades! Não devia nem permitir!

Então aquele jovem que só deixa tristeza e saudade no mundo precisava partir, enquanto este outro dejeto humano precisa continuar matando, roubando, se drogando, até quando?!

É, nem sempre conseguimos tapar o sol com a peneira, dourar a pílula, falar por metáforas.

Hoje não consegui.



Escrito por Maria Luiza às 22h38
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RECADO PARA A UOL

Sou muito arraigada às minhas coisas, não gosto de mudar nem os móveis de lugar.

Há quase dois anos tenho este blog que, inclusive, já ganhou um prêmio de "blog legal da UOL".

Neste ínterim, recebi várias propostas para criar um blog em outro site. Até agora não quis.

Agora, se continuar assim, dando erro de página e não abrindo para comentários, sinto muito, mas vou ter que cantar noutra freguesia!

Ah vou!



Escrito por Maria Luiza às 20h57
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O TEMPO

Sempre pensei que esta história de se queixar da rapidez do tempo fosse coisa de gente velha.

Bem, até que já estou treinando para ser uma... no entanto, percebo que mesmo os jovens e até algumas crianças acham que o tempo anda acelerado.

Ontem foi Ano Novo (lembram dos fogos?) e hoje já é quase Maio - o quinto mês do ano.

Há quem ainda esteja pagando os presentes de Natal, já passou a Páscoa e logo chega o Dia das Mães.

Para quem acompanha este blog há mais tempo e que torceu comigo para a chegada da Bruna ser "auspiciosa", saibam que falta menos de um mês para ela completar 1 ano!

Os domingos parece que se emendam uns aos outros, de tão próximos. Isso que estou aposentada e que preconizaram que os dias para mim seriam intermináveis e o tempo se arrastaria.

Dizem os que pensam entender que a culpa é da vida agitada, do excesso de compromissos, da correria. Será? Ou será que os planetas estão girando mais rápido ao redor do sol?

Custou tanto para chegar meus 15 anos! Depois os 20, quando eu determinei que começaria efetivamente minha vida adulta (casada e com um filho). Os 30 chegaram sem susto, com três filhos e excelente forma física. Os 40 já me assustaram um pouco, embora me considerasse no auge como mulher e como profissional. Na festa dos 50 pedi que as fotos fossem tiradas sem close, assim mais panorâmicas...rs.. E, se o tempo continuar nesta correria, daqui a pouco devora os anos que faltam e eu estarei fazendo 60! E agora José?! Sem plástica, sem a beleza da Vera Fischer, como será que me sentirei?

Sem demagogia, espero manter o espírito animado, aceitando as limitações físicas, aprimorando a intelectualidade, apreciando a maturidade dos filhos e o desabrochar dos netos. Quero passear de mãos dadas, ainda beijar na boca, recebendo elogios e promessas de amor eterno. Sobretudo, quero viajar! Viajar pelo mundo e pelos livros, nas asas da poesia se possível! Quero manter as amizades e fazer sempre novos amigos, pois é deles que precisamos e não de valorizar os desafetos.

O tempo passa. Muita coisa muda. Dentro e fora de nós mesmos. No entanto, quando reencontramos um grande amigo ou um grande amor, parece que ele se rebobina numa velocidade ainda mais frenética do que está correndo e somos de novo apenas aquela pessoa cristalizada na melhor fase da vida.

No orkut, quando passeio pelas fotos dos amigos de infância, da minha terra natal, da minha escola,sou imediatamente aquela menina de corpo certinho, nem magra nem gorda, de cabelos escuros e rebeldes, olhos amendoados, lábios grossos, mãos e pés pequenos, saia azul-marinho pregueada, blusa branca, gravata de bolinhas, sapatos de verniz, sempre atenta a tudo e a todos, estudiosa, pianista, a filhinha do Seu Ramos.

Esta é a melhor maneira de driblar o tempo.

E que venha o Natal!



Escrito por Maria Luiza às 08h49
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